O atalho da hipnose




A terapia funciona como uma espécie de atalho para a resolução dos mais diversos males, sobretudo as dores crônicas e as doenças de fundo emocional


Quando se fala em hipnose, nossa mente logo produz uma série de cenas imaginárias e até mágicas. Pêndulos balançando, ambientes sombrios, pessoas com superpoderes, magos ou feiticeiras capazes de controlar aquele que se encontra do outro lado. Por tudo isso, há quem acredite que a técnica não passe de enganação, puro jogo teatral em que o hipnotizado fingiria emoções sugeridas pelo hipnólogo.

No entanto, a realidade é bastante diferente. É crescente o número de estudiosos que pesquisam os efeitos da hipnose e hoje está comprovado que os comandos de um profissional da área são capazes de ativar ou desativar certas áreas do nosso cérebro, sem que haja a perda da consciência. O fenômeno ocorre com os centros de atenção em plena atividade e a pessoa hipnotizada apresenta ondas cerebrais típicas de quem está acordado.

A hipnose funciona como uma espécie de atalho para a resolução dos mais diversos males, sobretudo as dores crônicas e as doenças de fundo emocional (problemas de pele, anorexia, bulimia, transtorno obsessivo compulsivo, gastrite, fibromialgia, enxaqueca e até a depressão). Além disso, auxilia pessoas com dificuldades de aprendizagem, indivíduos que sofrem de distúrbios sexuais, obesos e dependentes de drogas, cigarro e álcool.

Trata-se de uma arte em que o principal foco é a concentração. Provavelmente você não sabe, mas entra em estado hipnótico cerca de 12 vezes ao dia. Quer saber quando? Ao ficar divagando sobre uma canção que lhe tocou profundamente e a partir dela, visualizando situações, por exemplo. Ou quando, num piscar de olhos, chega no trabalho, sem se dar conta que dirigiu mais de meia hora e respeitou sinais de trânsito, como se estivesse no piloto automático.

Ou ainda enquanto lê essa matéria e esquece do restante do mundo, no intuito de absorver o máximo possível das informações aqui contidas. Os especialistas chamam esse estado de autohipnose, uma espécie de fenômeno natural.

Nesses casos, ou na hipnose induzida, a pessoa entra num estágio chamado de transe. "É uma condição ampliada da consciência. O paciente foca sua atenção em algo específico e amplifica os seus sentidos", afirma a médica Sofia Bauer, diretora do Instituto Milton Erickson de Florianópolis.

Assim, a hipnose funcionaria como uma janela para o inconsciente, aquilo que já vivemos e aprendemos, mas deixamos adormecer dentro de nós mesmas. Em transe, torna-se possível resgatar esses aprendizados passados, liberar mais facilmente as emoções reprimidas, buscar a origem de medos, ter imagens visuais e provocar fenômenos fisiológicos como aceleramento cardíaco ou até mesmo sensação de anestesia em determinadas partes do corpo.

Foram essas facilidades e artifícios que motivaram os conselhos federais de medicina, odontologia e psicologia a regulamentarem o uso da técnica e reconhecê-la como uma grande ferramenta para seus tratamentos.

O CÉREBRO A FAVOR DA SAÚDE
Herbert Benson, cardiologista americano da Universidade de Harvard, constatou por meio de pesquisas que 60% das consultas médicas poderiam ser evitadas se as pessoas usassem a sua capacidade mental para combater as tensões causadoras de males físicos. E é nesse sentido que a hipnose age, como fortalecedora e esclarecedora da mente.

Tudo o que é trabalhado durante as sessões se dá a partir de conceitos que o paciente já conhece. O hipnólogo Fábio Puentes explica que não é possível que o paciente passe a fazer coisas que não domina, fale do que não sabe ou tenha sensações que não conhece: "Trabalhamos sempre com associações. Para anestesiar, por exemplo, dizemos que o paciente se sentirá com o braço dormente como aquela vez que sentou-se em cima da mão e ela passou a formigar. Se ele se recordar disso, sentirá.

Programamos a mente com ajuda daquilo que já existe dentro da pessoa", afirma. Isso acontece, diz o especialista, porque o cérebro não consegue distinguir realidade de atenção concentrada e pode então ser "enganado".

Uma das aplicações da técnica é a dispensa das injeções anestésicas, que provocam tanto pavor nos pacientes. Partos e cirurgias já são feitos com o apoio da hipnose: "Em especial na área odontológica os resultados são excelentes, até para controlar medo do motorzinho", diz Puentes.


"Se você trata os sofrimentos mentais, resgata a energia psíquica que age na melhora da saúde"
Sofia Bauer

Durante o transe, as palavras ditas têm maior impacto sobre o indivíduo, que se encontra totalmente voltado para o problema em questão. O hipnólogo explica que há também uma diminuição do nosso senso crítico, facilitando assim a localização da fonte de nossos problemas, o controle da ansiedade e das fobias e principalmente a aceitação de novas sugestões, como mudanças de pensamento e hábitos que levarão a uma melhora da qualidade de vida.

No entanto, a pessoa hipnotizada permanece consciente e trabalha ativamente na sua recuperação. O profissional atua somente como um guia, um facilitador de direções: "O paciente não perde a consciência e continua dono de si. Ele não passa por cima de seus princípios, por exemplo", completa.

Além de aliviar as dores, Sofia acredita que a hipnose permite uma cura mais efetiva, já que age nos conflitos causadores das doenças: "Nosso objetivo não é apenas retirar o sintoma, mas sim ir até a sua causa e removê-lo de vez. Se você trata os sofrimentos mentais, resgata a energia psíquica que age na melhora da saúde. A doença é um sinalizador de que algo está errado e é geralmente conseqüência de conflitos internos mal trabalhados", afirma. Ela atribui ao transe a agilidade no tratamento: "Indo para dentro de si mesma, você pode encontrar as saídas para os seus problemas, seus recursos naturais e escondidos lá no fundo da mente". Na hipnoterapia, o tempo de tratamento dos transtornos psíquicos é bem mais curto do que na terapia convencional, que pode levar anos. A técnica mostra a sua eficácia em intervalos de uma sessão a alguns meses de trabalho.

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